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  Sonetos de Luís Vaz de Camões 

Para tão longo amor tão curta a vida

Luís Vaz de Camões (1524.1580), filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá de Macedo, ficou órfão ainda pequeno, tendo sido cuidado por um tio cônego, Bento de Camões, prior de mosteiro e chanceler da Universidade de Coimbra. Esse tio lhe teria orientado os estudos e as leituras clássicas.

Temperamental, infeliz no amor, Camões teve uma vida agitada. Como militar, serviu no norte da África, onde perdeu o olho direito na batalha de Alcácer Ouibir. Preso várias vezes, passou dezessete anos no exílio, nas colônias portuguesas da África e da Ásia. Retomou a Portugal em 1570, já com sua obra máxima, Os lusíadas, terminada (a primeira edição sairia em 1572). Morreu pobre e abandonado em 10 de junho de 1580 e foi enterrado como indigente.

Como lírico, Camões escreveu poesias na medida velha e na medida nova. Sua obra lírica está reunida no livro Rimas, em que canta o amor místico e carnal numa intensa contradição interior. Seus sonetos, profundos e perfeitos, possuem notável valor artístico e humano.

Enquanto quis Fortuna que tivesse

 esperança de algum contentamento,

o gosto de um suave pensamento

me fez que seus efeitos escrevesse.

 

Porém, temendo Amor que aviso desse

minha escritura a algum juízo isento,

escureceu-me o engenho co tormento,

para que seus enganos não dissesse.

 

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos

a diversas vontades! Quando lerdes

num breve livro casos tão diversos,

 

verdades puras são, e não defeitos...

E sabei que, segundo o amor tiverdes,

tereis o entendimento de meus versos!

Eu cantarei de amor tão docemente,

por uns termos em si tão concertados,

que dous mil acidentes namorados

faça sentir ao peito que não sente.

 

Farei que amor a todos avivente,

pintando mil segredos delicados,

brandas iras, suspiros magoados,

temerosa ousadia e pena ausente.

 

Também, Senhora, do desprezo honesto

de vossa vista branda e rigorosa,

contentar-me-ei dizendo a menos parte.

 

Porém, para cantar de vosso gesto

a composição alta e milagrosa,

aqui falta saber, engenho e arte.

Busque Amor novas artes, novo engenho,

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que n' alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei por quê.

 Amor é um fogo que arde sem se ver,

 é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

 é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Tanto de meu estado me acho incerto,

que em vivo ardor tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio,

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto, um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego ao Céu voando,

nu'hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar u'hora.

 

Se me pergunta alguém porque assi ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.

Doces águas e claras do Mondego,

 doce repouso de minha lembrança,

onde a comprida e pérfida esperança

 longo tempo após si me trouxe cego;

 

de vós me aparto; mas, porém, não nego

que inda a memória longa, que me alcança,

 me não deixa de vós fazer mudança,

mas quanto mais me alongo, mais me achego.

 

Bem pudera Fortuna este instrumento

 d'alma levar por terra nova e estranha,

 oferecido ao mar remoto e vento;

 

mas alma, que de cá vos acompanha,

nas asas do ligeiro pensamento,

para vós, águas, voa, e em vós se banha.

O fogo que na branda cera ardia,

vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo,

se acendeu d'outro fogo do desejo,

por alcançar a luz que vence o dia.

 

Como de dous ardores se encendia,

da grande impaciência fez despejo,

e, remetendo com furor sobejo,

vos foi beijar na parte onde se via.

 

Ditosa aquela flama, que se atreve

[a] apagar seus ardores e tormentos

na vista de que o mundo tremer deve.

 

Namoram-se, Senhora, os Elementos

de vós, e queima o fogo aquela neve

que queima corações e pensamentos.

Pede o desejo, Dama, que vos veja,

não entendo o que pede; está enganado.

É este amor tão fino e tão delgado,

que quem o tem não sabe o que deseja.

 

Não há causa a qual natural seja

que não queira perpétuo seu estado;

não quer logo o desejo o desejado,

 porque não falte nunca onde sobeja.

 

Mas este puro afeito em mim se dana;

que, como a grave pedra tem por arte

o centro desejar da natureza,

 

assi o pensamento (pala parte

que vai tomar de mim, terreste [e] humana)

foi, Senhora, pedir esta baixeza.

Tomou-me vossa vista soberana

adonde tinha armas mais à mão,

por mostrar que quem busca defensão

contra esses belos olhos, que s' engana.

 

Por ficar da vitória mais ufana

deixou-me armar primeiro da Razão;

cuidei de me salvar, mas foi em vão,

que contra o Céu não vaI defensa humana.

 

Mas porém se vos tinha prometido

o vosso alto destino esta vitória,

ser-vos tudo bem pouco está sabido.

 

Que, posto que estivesse apercebido,

não levais de vencer-me grande glória:

maior a levo eu de ser vencido.

Vossos olhos, Senhora, que competem

 co Sol em fermosura e claridade,

enchem os meus de tal suavidade

que em lágrimas, de vê-Ias, se derretem.

 

Meus sentidos vencidos se sometem

assi cegos a tanta majestade;

e da triste prisão, da escuridade,

cheios de medo, por fugir remetem.

 

Mas se nisto me vedes por acerto,

o áspero desprezo com que olhais

torna a espertar a alma enfraquecida.

 

Ó gentil cura e estranho desconcerto!

Que fará o favor que vós não dais,

quando o vosso desprezo torna a vida?

Alegres campos, verdes arvoredos,

 claras e frescas águas de cristal,

que em vós os debuxais ao natural,

discorrendo da altura dos rochedos;

 

silvestres montes, ásperos penedos,

compostos em concerto desigual,

sabei que, sem licença de meu mal,

já não podeis fazer meus olhos ledos.

 

E, pois me já não vedes como vistes,

não me alegrem verduras deleitosas,

nem águas que correndo alegres vêm.

 

Semearei em vós lembranças tristes,

regando-vos com lágrimas saudosas,

e nascerão saudades de meu bem.

Está o lascivo e doce passarinho

com o biquinho as penas ordenando;

o verso, sem medida, alegre e brando,

espedindo no rústico raminho;

 

o cruel caçador (que do caminho

se vem calado e manso desviando)

na pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

 

Destarte o coração, que livre andava,

(posto que já de longe destinado)

onde menos temia, foi ferido.

 

Porque o Frecheiro cego me esperava,

 para que me tornasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

Se as penas com que Amor tão mal me trata

quiser que tanto tempo viva delas

que veja escuro o lume das estrelas

em cuja vista o meu se acende e mata;

 

e se o tempo, que tudo desbarata,

secar as frescas rosas sem colhê-Ias,

mostrando a linda cor das tranças belas

mudada de ouro fino em bela prata;

 

vereis, Senhora, então também mudado

o pensamento e aspereza vossa,

quando não sirva já sua mudança.

 

Suspirareis então pelo passado,

em tempo quando executar-se possa

em vosso arrepender minha vingança.

Tempo é já que minha confiança

se desça de ua falsa opinião;

mas Amor não se rege por razão;

não posso perder, logo, a esperança.

 

A vida, si; que ua áspera mudança

não deixa viver tanto um coração.

E eu na morte tenho a salvação?

Si, mas quem a deseja não a alcança.

 

Forçado é logo que eu espere e viva.

Ah! dura lei d' Amor, que não consente

quietação nua alma que é cativa!

 

Se hei-de viver, enfim, forçadamente,

para que quero a glória fugitiva

d'ua esperança vã que me atormente?

Lindo e sutil trançado, que ficaste

em penhor do remédio que mereço,

se só contigo, vendo-te, endoudeço,

que fora cos cabelos que apertaste?

 

Aquelas tranças d'ouro que ligaste,

que os raios do Sol têm em pouco preço,

não sei se para engano do que peço

se para me atar, os desataste.

 

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,

e por satisfação de minhas dores

como quem não tem outra, hei-de tomar-te.

 

E se não for contente meu desejo,

dir-lh' -ei que, nesta regra dos amores,

pelo todo também se toma a parte.

Oh! como se me alonga, de ano em ano,

a peregrinação cansada minha!

Como se encurta, e como ao fim caminha

este meu breve e vão discurso humano!

 

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;

perde-se-me um remédio, que inda tinha;

se por experiência se adivinha,

qualquer grande esperança é grande engano.

 

Corro após este bem que não se alcança;

o meio do caminho me falece,

mil vezes caio, e perco a confiança.

 

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,

se os olhos ergo a ver se inda parece,

da vista se me perde e da esperança.

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-Ia;

porém o pai, usando de cautela

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: - Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

Amor, que o gesto humano n' alma escreve,

vivas faíscas me mostrou um dia,

donde um puro cristal se derretia

por entre vivas rosas e alva neve.

 

A vista, que em si mesma não se atreve,

por se certificar do que ali via,

foi convertida em fonte, que fazia

a dor ao sofrimento doce e leve.

 

Jura Amor que brandura de vontade

causa o primeiro efeito; o pensamento

endoudece, se cuida que é verdade.

 

Olhai como Amor gera num momento,

de lágrimas de honesta piedade

lágrimas de imortal contentamento.

Ditoso seja aquele que somente

se queixa de amorosas esquivanças;

pois por elas não perde as esperanças

de poder n'algum tempo ser contente.

 

Ditoso seja quem, estando ausente,

não sente mais que a pena das lembranças;

porqu', inda que se tema de mudanças,

menos se teme a dor quando se sente.

 

Ditoso seja, enfim, qualquer estado

onde enganos, desprezos e isenção

trazem o coração atormentado.

 

Mas triste quem se sente magoado

d'erros em que não pode haver perdão,

sem ficar n'alma a mágoa do pecado.

 

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By Nadia Maria Meirelles

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